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Muladeiros de Unaí: tradição nas vias contemporâneas

Repórter: Élton Skartazini

Criar e andar de mula é o jeito prazeroso que ‘Os Muladeiros de Unaí/MG’ encontram de viver o ontem hoje. É uma forma de tornar presente o cotidiano dos antepassados. Durante séculos mulas era o principal meio de transporte de cargas e gentes pelos ‘grandes sertões e veredas’ desse Brasil que se perdia de vista. No início da colonização os moares (burros e mulas) eram usados até mesmo como moeda de troca. Hoje ser ‘muladeiro’ é atitude essencialmente cultural e de lazer.

 
Vem as mulas, vão os carros   José Deodato

“Nossos amigos do Home Center Castelo Forte nos convidaram para vir a Brasília. Saímos de Unaí no dia 04/11/2008 e dormimos a primeira noite em Sadô, já no alto da chapada. O segundo pouso foi em Arrependido, divisa de Minas e Goiás. Na quinta dormimos no PADF. Na sexta no São Sebastião e hoje chegamos ao Núcleo Rural Casa Grande”, narra Ênio Dias, como quem conta um ‘causo’ à beira do ‘fogo de chão’.

 “Na minha infância o principal meio de transporte era a mula. Somos unidos pela afinidade aos animais e pela aventura das cavalgadas. Saímos do estresse da cidade, tomamos brejeira, cerveja, ouvimos música sertaneja e nos divertimos muito. Alguns permanecem na lida rural, mas não como era no passado. Quanto mais usamos a tecnologia, mais superficial se torna a vida. Por isso é necessário resgatar o passado, buscar meio de vida mais natural”, filosofa José Deodato com nostalgia na voz.

Por onde passaram viraram atração. Pelas estradas ficou marcado o contraste do Brasil de ontem e o Brasil de hoje. Motoristas em seus automóveis paravam e reverenciavam enquanto o cortejo corta asfaltos... 

 
As carroças de ontem hoje são caminhões   De Unaí, Minas Gerais, para o Distrito Federal

Viagem programada

Bacharel em teologia e presidente da Associação dos Carreiros do Noroeste de Minas, Dílson Rodrigues explica que “o movimento de muladeiros surgiu em 2004, desafiando a supremacia dos cavalos. A Associação dos Muladeiros de Unaí foi criada em 2006, numa festa do carro de boi, na qual houve apresentações de mulas”.

O grupo já realizou várias cavalgadas: foram três vezes à Festa do Peão em Barretos; percorreram duas vezes a Estrada Real, passando pelas cidades históricas de Ouro Preto, Congonhas do Campo, Jeceaba, Entreiros de Minas, Tiradentes, Prado, São João Del Rei e Lagoa Dourada, região dos cavalos manga larga, pega e jumentos. Foram à romaria de João Pinheiro, exposições em Paracatu e Festa do Carro de Boi em Palmital.

A cavalgada em mulas para Brasília foi combinada há três anos, como troca de gentilezas e favores com os muladeiros do Distrito Federal, que vão sempre a Unaí. Participo do grupo pela amizade e vim aqui fazer novos amigos. Minha vontade é que esse intercâmbio se intensifique ainda mais”, declarou o vigilante ‘Nego Rocha’.

 

 
Mestre cuca   Esposas e filhos na retaguarda

Família unida

Casado com Cida Faria e pai do Rafael, o técnico agrícola Cláudio Bueno nasceu em Nova Eras/MG, região montanhosa onde até hoje mulas e burros são usados para transportar lenha, carvão e arar a terra. Chegou a Unaí em 2004 para gerenciar as fazendas do Grupo Tamasa Engenharia. “A viagem ao Distrito Federal correu bem. Subir a serra foi uma prova pras mulas. Estamos bem estruturados para montar acampamento e nos adaptamos em qualquer lugar. Aqui a recepção foi além do esperado. A família Castelo Forte nos deixou muito a vontade”.

Cida Faria, esposa de Cláudio Bueno e diretora da Cerâmica Rio Preto, acha “o movimento dos muladeiros bonito, forte e familiar. Fazem questão da presença da família. Toda semana tem reunião e as esposas se envolvem com as ações sociais do grupo. Nessa cavalgada teve gente de 0 a 80 anos. Nosso filho Rafael, de cinco meses, participou muito feliz e já tem uma mula à sua espera. A TV Rio Preto registrou sua participação”

 
Pausa para a 'brejeira'   Casa Grande é logo ali

.Cultura e qualidade de vida

Renildo Alves se apresenta como “engenheiro, pecuarista e carreiro, com muito orgulho!” Diretor Engetese Engenharia, com fazenda em Betim/MG, seu lazer é andar de carro de boi viajando por até 500 km. Agora virou muladeiro. “O desafio é percorrer caminhos diferentes, pousar em galpões e barracas. As viagens são grandes momentos da minha vida. Fazemos parte de um movimento mundial pela qualidade de vida, que busca paz e bem estar. A cultura gera qualidade de vida. Não só muladeiros, mas outros grupos semelhantes levam o ser humano a conviver em comunhão”.

Queremos fortalecer a cultura, gerar lazer, turismo e beneficiar a comunidade. Nas festas que realizamos metade da renda vai para ações sociais. Em 2008 arrecadamos brinquedos para crianças carentes. A sociedade reconhece e participa. A parceria com o Home Center Castelo Forte cria um ‘porto seguro’ pro movimento no Distrito Federal”, esclarece Ênio Dias.

 

Muladeiros do Distrito Federal

João André é vice-presidente da Associação dos Criadores de Pega e Moares do Distrito Federal, cujo atual presidente é Hélsio Sena. É também tesoureiro da Associação dos Criadores do Planalto, com aproximadamente 30 associados e centenas de simpatizantes. “Moares é um negócio em ascensão porque está se tornando paixão nacional. Os criadores do Distrito Federal são reconhecidos nacionalmente”, diz ele.

No Distrito Federal a primeira ‘mulada’ ocorreu em 2005, na Esplanada dos Ministérios. A última foi no dia 21/04/08, comemorativa aos 50 anos de Brasília e contou com a participação de aproximadamente 3.500 cavalos, bois e mulas montados. Em 2009 pretendem realizar outro grande evento com os criadores do Distrito Federal e cidades vizinhas, inclusive Unaí.

 
Na chegada a benção de São Francisco   Merecido descanso para mulas e muladeiros
 
 
 
 
 

 

       
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