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O Recanto das Emas do Roberto Cabeça

Reportagem: Élton Skartazini

 

 

Carlos Alberto Mendes de Souza, conhecido por ‘Roberto Cabeça’, é o escultor das emas de concreto instaladas no balão de entrada do Recanto das Emas, símbolo da cidade. Em vez de emas, ele poderia ter esculpido oliveiras de concreto, porque o ‘Recanto’ quase se chamou ‘das Oliveiras’.

 

O objetivo da entrevista é saber sobre a vida e a obra desse artista que se multiplica em muitos para sobreviver da arte e contribuir com a evolução da sua comunidade. Ele tem uma percepção bastante peculiar sobre a cidade onde mora e atua.
 

Castelo Forte - Onde e quando você nasceu e como chegou no Distrito Federal?

 

Roberto Cabeça- Eu nasci no dia 20 de dezembro de 1956 em Ituiutaba, Minas Gerais, região do Triangulo Mineiro. Mas vim para Brasília com três anos de idade, em 1959, quando fomos morar na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. Era ali que se alojavam todos os candangos, como o meu pai, que vinham para construir Brasília. No Recanto das Emas eu cheguei em 1992, ainda antes da cidade ter sido oficialmente reconhecida. Fui um dos pioneiros da quadra 114.

 

Castelo Forte - Quando chegou no Recanto você já era o ‘Roberto Cabeça’?

 

Roberto Cabeça - O Roberto Cabeça apareceu ainda em 1970, quando eu morava em Taguatinga e acompanhava o movimento dos ‘black powers’ (poder negro), aqueles que usam o cabelo grande. Um dia eu cortei o cabelo bem baixinho, aí me botaram o apelido de ‘Cabecinha’, que depois passou a ser ‘Cabeça’. O Roberto veio da vontade da minha família, que sempre me chamou de Roberto, em vez de Alberto. De Taguatinga para o P Norte eu já saí como ‘Roberto Cabeça’ e foi assim que cheguei no Recanto das Emas. Aqui me chamam também de ‘seu boneco’, um personagem palhaço com que brinco de vez em quando e com o qual conheci um outro grande artista da nossa comunidade: o Márcio Rodrigues.

 

Castelo Forte - O que significa o Recanto das Emas para você?

 

 

Roberto Cabeça - Embora considerado um lugar violento, o Recanto das Emas para mim é um ambiente muito bom para morar. A cidade é cortada pelos córregos Monjolo e Vargem da Benção. É muito tranqüila se você souber se relacionar com ela. Eu, o Márcio Rodrigues, o Mixaria (seu filho) e todo o pessoal que trabalha com arte e cultura buscamos sempre levar o nome da nossa cidade para o Distrito Federal e outras partes do Brasil, pelo que ela tem de bom.

 

Castelo Forte - Sabemos que você sobrevive de arte. Quais são suas frentes de atuação no universo artístico?

 

Roberto Cabeça - Hoje estou trabalhando mais com o artesanato e com o nosso grupo de teatro, o ‘Cia. Teatral Cara de Palco’, que faz o espetáculo ‘Alegria de Palhaço’. Atualmente trabalho também com o pessoal da ‘Oficina da Arte’ que leva o espetáculo ‘A bruxinha e a Floresta Encantada’, texto adaptado pelo Márcio Rodrigues. Faço cenário para teatro e adereços de carnaval. As intervenções dos palhaços ‘Chocolate’ e ‘Mixaria’ também já são bastante conhecidas na cidade, em festas juninas, aniversários, etc.

 

Castelo Forte - O que o levou a fazer as emas do balão?

Roberto Cabeça - O primeiro administrador regional do Recanto das Emas, José Silva, se interessou muito em fazer uma escultura que marcasse a entrada da cidade. Nessa época eu trabalhava na feira fazendo miniaturas de pássaros. Foi o meu amigo Márcio Rodrigues quem me apresentou para o administrador e disse que eu teria condições de fazer essa escultura. Então, em 1993 eu fiz a primeira ema que, ao ser transportada, sofreu um incidente e quebrou as pernas, por isso até hoje está lá como se estivesse no ninho. A segunda eu fiz em 1996, no próprio local, porque lá precisava ter pelo menos duas emas, afinal, o nome da cidade está no plural. Hoje as emas do balão são internacionalmente conhecidas. Esses dias um amigo me ligou lá da Flórida/EUA, para me falar sobre uma conversa de bar que ouviu por lá. Duas pessoas conversavam sobre Brasília e uma falou para a outra: “quando você chegar num balão que tem duas emas, a próxima cidade é Samambaia”. Para mim, ter feito as emas é muito importante, porque agora, além de artesão, sou considerado também artista plástico.

 

Castelo Forte - Porque a cidade se chama Recanto das Emas?

 

Roberto Cabeça - A origem do nome da cidade tem duas versões. Dizem que aqui era para se chamar Recanto das Oliveiras, porque no local já havia a escola ‘Granja das Oliveiras’. Porém, oliveiras são pés de azeitona, vegetação essa que não existe por aqui. Por outro lado, além da escola, aqui havia também um sítio chamado ‘Recanto’ onde, dizem, freqüentavam muitas emas que vinham para comer restos de comida, ração, etc. Por aqui existe também uma espécie vegetal chamada ‘Canela de Ema’, encontrada principalmente nas beiras de córregos e rios. O sítio, as aves e a vegetação nativa foram decisivos na escolha do nome da cidade.

 

Castelo Forte - Sabemos que você também desenvolve projetos sociais e ambientais. Poderia nos falar sobre isso?

 

Roberto Cabeça - Eu trabalho na escola de samba ARUREMAS onde ensino jovens e adolescentes a confeccionarem adereços. Na questão ambiental faço um trabalho com a comunidade, principalmente as escolas, que consiste na limpeza dos córregos Monjolo e Cachoeira da Benção. A gente se reúne em mutirão e vai catar garrafas pet, isopor, carcaças de eletrodomésticos, pneus, bicicletas e outros objetos descartados. Com esse material fazemos obras de arte. Estou com o projeto ‘Lixo que te quero verde’, onde a proposta é pegar esse material jogado na natureza e transformar em lixeiras ecológicas para serem colocadas nesses locais regularizados como parques vivenciais, mas que estão muito degradados.

 

Castelo Forte - Você recebe algum apoio para realizar seu trabalho?

 

Roberto Cabeça - Além dos alunos e professores, o pessoal da saúde e do corpo de bombeiros também participa dos mutirões de limpeza dos córregos. Existe uma boa relação também com as empresas locais. Foi a Castelo Forte que deu os materiais para construir as emas. É uma empresa que sempre me socorre quando preciso de algum material para realizar o meu trabalho. Acho que com um pouco mais de união nós poderemos melhorar muito mais nossa cidade.

 

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