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Quantas
vezes você ouviu falar sobre a importância da
água para a sobrevivência do planeta? Qual sua
opinião sobre o assunto? O que você faz pela
preservação deste bem precioso? Como diz Tetê
Catalão: “O meio ambiente começa no meio da
gente”.
Tais interrogações
tem despertado o senso de responsabilidade
ambiental da Castelo Forte. A empresa se orgulha
de haver surgido e de crescer com Samambaia e
Recanto das Emas, mas que garantia temos de que
haverá água suficiente no futuro? Como a empresa
pode ajudar a preservar nossos recursos
hídricos?
Com mais estas
perguntas fomos a campo em busca de respostas.
Constatamos duas faces do problema: de um lado
córregos e nascentes ameaçados ou degradados
pela poluição e assoreamento; de outro lado
pessoas de atitude que arregaçam as mangas em
favor do bem comum: a água.
Recanto das Emas
No
Recanto das Emas conhecemos o Roberto Cabeça,
artista plástico e ambientalista, escultor das
emas de concreto instaladas no balão de entrada
da cidade. Como parte de sua militância social,
cultural e ambiental nos levou, juntamente com
um grupo de adolescentes, para uma ação de
limpeza do córrego Vargem da Benção.
Repórter –
Estamos de volta na sua casa com sacos cheios de
lixo juntado nas margens do córrego. Ao que se
deve isso que fizemos?
Roberto –
Este é um trabalho de preservação da natureza. O
Recanto das Emas é cortado pelos córregos
Monjolo e Vargem da Benção. Desde a implantação
da cidade, em 1993, estou preocupado com a
preservação ambiental. Tenho catalogado algumas
espécies de pássaros, peixes, lagartos, cobras e
insetos do cerrado. A comunidade usufrui dos
córregos, mas infelizmente deixa muitos dejetos
em suas margens.
Repórter – Que destino terá esse lixo que trouxemos?
Roberto –
Vou transformá-lo em lixeiras ecológicas com a
forma de animais silvestres em extinção: lobo
guará, mico leão dourado, tamanduá mirim...
Agora estou confeccionando um lobo guará que
pretendo entregar ao presidente Lula, para
sensibilizar o governo federal, os ministros do
meio ambiente e da cultura. Quero mostrar-lhes
que no Recanto das Emas tem pessoas preocupadas
com o meio ambiente e com as questões culturais.
Precisamos que sejam definidas políticas
culturais e ambientais para as cidades satélites
do Distrito Federal. Tenho o projeto Lixo Pra
Que Te Quero Verde que pode contribuir nesse
sentido.
Repórter –
Quem tem lhe apoiado em suas iniciativas?
Roberto – Conto muito com a comunidade. Crianças e
adultos me acompanham nas limpezas periódicas
que fazemos aos córregos. Duas vezes por ano são
feitos mutirões nos quais participam alguns
colégios, a Faculdade da Terra e alguns
comerciantes locais. Tem os que viram as costas
e até zombam, mas com isso não estão negando
ajuda a mim e sim ao meio ambiente e à própria
qualidade de vida. Pior ainda é os que além de
não contribuir ainda despejam óleo diesel a céu
aberto, como é o caso da garagem da Pioneira.
Vou insistir com eles para chegarmos a um
consenso de proteger o córrego Vargem da Benção.
O córrego Monjolo está praticamente perdido,
porque recebe muito esgoto sem nenhum
tratamento. Antes ele era freqüentado por muitos
banhistas, mas hoje a água está imprópria para
esse uso.
Repórter – O que você propõe como ação efetiva para
reverter a degradação de ambientes tão
exuberantes como o que acabamos de visitar?
Roberto –
Acho que a política ambiental é também cultural.
As pessoas que visitam o Recanto das Emas devem
ser recebidas de modo diferenciado, a começar
pela presença das emas no balão de entrada da
cidade. Acho que os Ministérios da Cultura e do
Meio Ambiente devem ter verba para investir num
galpão cultural onde possamos ensinar técnicas
de reciclar o lixo e encontrar formas de não
sujar mais o meio ambiente. No meu projeto
apresento as emas que contam histórias diversas
sobre a natureza, gravidez na adolescência,
alcoolismo, drogas, violência e tantos temas
relacionados ao meio ambiente, à cultura, à
comunidade...
Repórter –
Interessante. Mas como você viabiliza essas
idéias?
Roberto –
Sempre que preciso recorro à Castelo Forte, ao
supermercado Via Box e outras empresas que
apóiam com dinheiro ou material. No caso das
lixeiras ecológicas vou precisar novamente do
apoio para instalá-las no Recanto das Emas e em
outros ambientes estratégicos, como o jardim
zoológico, a água mineral, etc.
Repórter – Mas principalmente para instalá-las nas
margens dos córregos Monjolo e Vargem da Benção,
não é mesmo?
Roberto –
Sem dúvida temos que proteger nossos córregos. O
córrego Vargem da Benção tem hoje sua nascente
presa no CAJE, uma espécie de presídio para
menores infratores. Ali antes funcionava o
Parque das Oliveiras, colégio com centenas de
alunos e oficinas didáticas diversas. Mas foi
descaracterizado para se montar o presídio. Fico
triste com isso. A ministra do meio ambiente tem
que se preocupar com os grandes rios, mas também
com os pequenos córregos. Se não cuidarmos das
crianças como vamos cuidar dos adultos? Os
córregos Monjolo e Vargem da Benção formam o
córrego Buriti Tição, que deságua no Santo
Antônio do Descoberto, que cai na bacia do
Corumbá. Se não cuidarmos das nascentes, como
estes rios vão chegar ao mar? Pensando nessas
coisas fiz um poema para o córrego Vargem da
Benção.
Águas
Presas
Antes de vocês
nascerem
Eu já era uma
nascente.
Sou pequena, porém
grande,
Pois formo água
corrente.
No córrego Vargem
da Benção
Sou poço, sou
cachoeira,
Pode ser nos dias
frios
E também nos dias
quentes.
Por mais que vocês
me usem
Sou sempre água
corrente.
Eu nasci muito bem
antes
De o Brasil ser
descoberto.
Aqui tudo era mato
Não
tinha homem por perto.
Depois que vocês
chegaram,
Começaram a me
usar,
Se eu não fosse
insistente,
Vocês iam me matar.
Nunca matei, nem
roubei,
Vieram me
aprisionar.
Hoje estou dentro
do CAJE
Não saio deste
lugar.
Não aprendi pular
muro
Que o homem sabe
pular.
Chácaras
Daniel
ocupa uma chácara de três hectares próxima do
córrego Vargem da Benção. O critério para
ocupá-la foi chegar e erguer a cerca. Depois
veio a Terracap e a Administração Regional do
Recanto das Emas para cadastrar. Algumas
chácaras da área já têm água e luz, mas a do
Daniel ainda não. Ele nasceu no Paraná, foi
criado no Goiás e há 20 anos mora no Distrito
Federal.
Repórter –
Qual seu plano de investimento na chácara?
Daniel –
Dependendo da documentação que sair a gente vai
ter financiamento. Mas por enquanto estamos sem
documento. Hoje planto pimenta e maracujá. Não
sobrevivo disso por conta da bandidagem. Existem
muitos saqueadores. Não moro aqui, apenas ocupo
o espaço na expectativa da legalização do
terreno.
Repórter –
Quanto à preservação do meio ambiente e o
cuidado com a mata ciliar, qual é seu propósito?
Daniel – O
que foi desmatado não tem mais volta. De agora
em diante não desmato mais nada. Aliás, tenho
aqui sementes nativas para replantar partes da
mata.
Repórter –
Tem quantas chácaras por aqui?
Daniel - As
margens dos córregos Vargem da Benção e Monjolo
estão ocupadas por aproximadamente 120
chacareiros. Está tudo mapeado.
Samambaia
Em
abril de 2007 visitamos Francisco Gomes, morador
e artista de Samambaia, que tem muito em comum
com o Roberto Cabeça. Isso nos leva a crer na
existência de um movimento
sócio-cultural-ambiental liderado por pessoas
sensíveis a essas causas.
Francisco Gomes
nasceu em Ipiancó, Paraíba, em 1960. Mora em
Samambaia desde 1989. Em 2005 começou a montar
um cenário na área verde da quadra 621,
utilizando entulhos, lixos, pedras, terra e
troncos do cerrado.
Repórter – O
que seus visinhos acham deste seu trabalho?
Gomes – No
começo sempre é difícil. As pessoas não apóiam,
pensam que a gente está levando as coisas na
brincadeira. Meu trabalho é uma forma de
protestar, uma maneira de me expressar através
da arte. Serve também para chamar a atenção das
pessoas para a preservação da natureza.
Repórter – Quem te apóia?
Gomes – O
meu irmão Geraldo. Ele está despertando sua
consciência e acredito que irá me apoiar muito
mais. Pretendo desenvolver projetos sociais com
as pessoas em geral. Trabalho com os elementos
da natureza sem agredi-la.
Repórter –
Aproveitando a presença do irmão Geral pergunto
por que você o apóia?
Geraldo –
Primeiro porque é meu irmão e sozinho não tem
condições de abraçar a causa. Até abraça, mas
não consegue levar pra frente, mostrar pras
pessoas. Eu trabalho com instalações elétricas e
hidráulicas e tenho alguma condição de apoiá-lo.
Na medida do possível ajudo a comprar cimento,
cola, ferramentas, até que ele possa se
alavancar com esse projeto.
Repórter – Voltando ao artista. E a sua própria renda vem
de onde?
Gomes –
Confecciono e vendo bijuterias. Sou artesão e
artista plástico. Faço brinco do coco e outros
trabalhos com elementos da natureza, mas sem
agredi-la.
Repórter –
Pode falar sobre a limpeza que você faz nos
córregos próximos da sua quadra?
Gomes – Faço
isso por amor à natureza, ao meio ambiente, aos
animais. A gente tem que respeitar a fauna, a
flora e o reino mineral. Sou fã de São Francisco
e tenho uma estima muito grande pelo rio São
Francisco, que é muito importante para o nosso
país, principalmente para o nordeste. Sou
nordestino e gostaria de expandir meu trabalho
para lá. Mas por enquanto faço meu trabalho nos
córregos da Samambaia. O córrego Brechó, que
passa aqui em baixo, era muito poluído, mas o
governador Roriz investiu na sua despoluição,
porque ele ajuda a formar a barragem de Corumbá
IV.
Repórter –
Como é a limpeza que você faz?
Gomes – Cato
os lixos das grotas e nascentes. Tiro os animais
mortos e faço mais tantas coisas, sozinho, no
anonimato. Gostaria que as autoridades olhassem
para esse lado. Que saíssem dos gabinetes para
verificar o problema no local. Que designassem
biólogos e pesquisadores para levantar o que
está acontecendo nas grotas e córregos. Dá
tristeza ver a água, que é vida, se perder
assim.

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