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Maria
Clara – Uma questão que deveria
ser enfrentada imediatamente é o uso de
drogas que cresce assustadoramente entre
crianças e adolescentes. Mas não vemos
nenhuma iniciativa governamental para
fazer frente a isso. Não temos nenhum
programa preventivo e nem ambulatórios
para tratar casos diagnosticados. A
secretaria de saúde não investe na saúde
do adolescente. Em Samambaia temos o
doutor Ricardo que é um médico bastante
capacitado. Ele criou o projeto PRAIA
(Programa de Atenção Integral à Saúde do
Adolescente) que se tornou sua luta
solitária. Nós abraçamos essa causa
porque o projeto não funciona sem o
envolvimento das diversas áreas. Para
atender as vítimas e seus familiares é
necessário o trabalho de psicólogos,
assistentes, enfermeiros, etc. Quando o
conhecemos fomos até o diretor da rede
pública de saúde de Samambaia, mas ele
não deu muita importância ao projeto
PRAIA. Sequer queria liberar o doutor
Ricardo para trabalhar 40 horas no
projeto, propondo que ele ficasse 20
horas na pediatria e 20 horas atendendo
adolescentes. O doutor Ricardo desistiu
do projeto porque o atendimento não se
limita à parte clínica. Hoje, em
Samambaia e no Recanto das Emas, não
temos para onde encaminhar adolescentes
viciados em drogas.
Repórter –
Então o que acontece com os
adolescentes que procuram o conselho?
Maria Clara
– Em Taguatinga o projeto PRAIA
encaminha os adolescentes para um posto
de saúde na Ceilândia, preparado para
atendê-los. Mas isso ainda é uma coisa
muito tímida, à mercê de pessoas
apaixonadas pelo que fazem. Não é uma
preocupação governamental. Na verdade
não temos para onde encaminhar nossos
adolescentes. Os centros de tratamento
só atendem quem tem mais de 18 anos. A
gente percebe que falta comprometimento
do governo para levar a sério este
problema.
Repórter –
Qual a atuação do conselho tutelar
nas escolas?
Antônio Roldino
– Nosso desejo é participar de reuniões
com pais e professores para
apresentar-lhes o conselho tutelar e
tratarmos de questões preventivas que
ajudariam a reduzir situações de risco.
Fomos a algumas escolas dar palestra,
mas ainda não nos aproximamos de todas
elas. Recebemos encaminhamentos das
escolas
Maria Clara
– Temos uma história que ilustra muito
bem esse fato. Dois amigos chegaram a um
rio onde crianças eram jogadas para
morrerem afogadas. Um dos dois entrou
logo na água e se pôs a salvar essas
crianças enquanto o outro amigo
desapareceu. O que estava salvando as
crianças reclamou a falta do outro para
ajudá-lo. Mas ele havia ido atrás da
montanha para ver quem é que estava
jogando as crianças no rio. A moral da
história é que não adianta fazermos
curativos sem conhecer e atacar a raiz
do problema.
Antônio Roldino
– Às vezes tenho a impressão que a
sociedade não nos vê como seres humanos
que também temos problemas e fraquezas.
Samambaia e Recanto das Emas somam
aproximadamente 350 mil habitantes e nós
somos apenas quatro conselheiros na
ativa. Fazemos em média 38 atendimentos
diários. Resolvemos alguns casos, o que
justifica nosso esforço e nos alegra.
Mas queremos que todos sejam atendidos.
Repórter –
Existem iniciativas da própria
comunidade que vem ao encontro dessas
demandas?
Antônio Roldino
– Em 2005 algumas ONG’s nos procuraram
para oferecer vagas em cursos de
computação, atividades esportivas, de
lazer, etc. Citamos entre elas o
Instituo Padre Brandão, a associação
Chico Mendes, a Casa das Artes e a
sociedade dos amigos da Expansão. Mas
isso é pouco frente à demanda.
Repórter –
Com o que vocês contam,
efetivamente?
Maria Clara
– Todo ano o governo nos pede para
fazermos listas do que precisamos, mas
não vemos praticamente nada chegar. Esse
prédio onde estamos instalados
conseguimos depois de muita batalha. No
local onde trabalhávamos não havia
condições, porque a única sala em que
atendíamos nos obrigava, por exemplo, a
colocar vítima e agressor juntos,
provocando constrangimento. Tínhamos um
carro que vivia quebrado, mas agora
contamos com uma combi locada pelo GDF.
Antunes – A
verdade é que o conselho tutelar é um
órgão provocador de mudanças, por isso
enfrenta muita resistência em vários
setores do governo e da própria
sociedade. O governo não nos dá muitas
condições porque viemos para cobrar,
para exigir a defesa de direitos que
aumentam as obrigações do estado.
Aida Maria –
O que mais cansa é a falta de estrutura.
Atuamos num órgão destinado a atender
crianças e adolescentes, mas nos falta
dignidade. Como podemos acolher a
comunidade se não temos espaço adequado,
cadeiras, pessoal para manter o ambiente
limpo? Tudo é muito lento. A comunidade
nos elegeu, mas somos negligenciados
pelo poder público. O fórum, a vara da
infância e a promotoria recebem
tratamento diferenciado, mas nós somos
negligenciados.
Repórter –
Como pode ser medido o resultado das
ações do conselho tutelar?
Aida Maria –
O conselho tutelar lida com os direitos
e não consegue mostrar para a sociedade
a sua importância em valores
mensuráveis. Nossa ação não aparece como
obras. Mas posso citar o exemplo de uma
garota que nos foi encaminhada pela
escola. Ela tinha várias limitações e
carecia de muitos tratamentos. Até hoje
nós a acompanhamos no tratamento
neurológico, psiquiátrico, etc. Ficamos
contentes quando atendemos casos e a
‘rede de proteção’ nos acolhe. Mas não
podemos chamá-los de casos de sucesso
porque tudo é um processo. Alguns
resultados são alcançados de imediato,
outros dependem de uma estrutura
familiar que nem sempre existe.
Deparamos-nos com o desemprego, a fome,
o álcool, as drogas. Em Samambaia e no
Recanto das Emas os adolescentes em
geral ficam soltos pelas ruas porque não
têm lazer, esporte, arte, etc. Saem da
aula e ficam em casa ou na rua. Mas
nenhum adolescente agüenta ficar dentro
de casa sem ter uma atividade.
Antunes – Em
2005 atendemos um caso no Recanto das
Emas, de uma jovem mãe que amarrou e
agrediu seus filhos. A viatura da
polícia militar nos trouxe as crianças
para que abrigássemos. O pai não as
havia registrado, então tivemos que
procurar os familiares dessa jovem mãe.
Eles moravam em Marília, São Paulo.
Acionamos o conselho tutelar dessa
cidade e um conselheiro veio para cá
juntamente com um tio materno das
crianças. Houve interesse familiar em
resolver a questão. Consideramos isso
muito importante.
Repórter –
A comunidade apresenta soluções em
favor da defesa dos direitos das
crianças e adolescentes?
Aida Maria –
Para nós o principal papel da comunidade
é denunciar ao conselho tutelar todos os
casos em que houver crianças e
adolescentes em situação de risco.
Nossos telefones para esse fim é o (61)
3358.8940 e o 3358.4406. Compete a nós
tomarmos as medidas cabíveis.
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