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Zé Mulato e Cassiano: mestres da arte popular sertaneja

Reportagem: Élton Skartazini

 

Nem só com materiais de construção se constrói uma cidade, um país, uma nação... Além da infra-estrutura (recursos físicos e materiais) é necessária também excelente supra-estrutura (conhecimento, cultura, sabedoria...) para se alcançar a evolução. Detentores e propagadores de uma cultura genuína, Zé Mulato e Cassiano representam, de forma autêntica, o modo de vida do povo dos grandes sertões do Brasil.

 

Hoje eles são estrelas na constelação da música sertaneja onde brilham Zé Carreiro e Carreirinho, Solimão Ruero, Vieira e Vierinha, Inezita Barrozo, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Ana e tantos outros vivos ou mortos. São herdeiros de um jeito de cantar, contar e encantar que passa de geração a geração e que mantém vivas informações essenciais para o conhecimento do processo sócio-cultural.

 

A fim de gerar material para construção da supra-estrutura brasileira, a Castelo Forte Materiais de Construção proporcionou essa reportagem em reconhecimento ao trabalho destes mestres da arte sertaneja.

 

A dupla

 

Nasceram em Passa Bem, sudeste de Minas Gerais, próximo de João Molevar e Itabira. Vieram para Brasília em 1969. Chegaram aqui como todo brasileiro de pequeno porte, para trabalhar no que pudessem e lutar pela sobrevivência. Aprenderam a pintar parede, atividade que exerceram por muitos anos.

 

À parte dessa lida se enturmaram com o pessoal da música, "que é uma coisa que vem da alma. Quem nasceu para a música, nem que seja para ouvinte, já está ajudando a música", afirma Zé Mulato. Gravaram o primeiro disco em 1978, mas a dupla havia se formado em 1974.

O fato de serem irmãos contribuiu para a ascensão da dupla. "Muitas coisas que os estranhos tem que adaptar para conviver, entre irmãos fica mais fácil, porque ambos já viveram as mesmas dificuldades, sabem como é a luta para conquistar as coisas, conhecem as dificuldades dos pais para cria-los. Tudo é mais simples", explica.

 

Castelo Forte - Como se instituiu a música sertaneja na capital do Brasil?

 

Zé Mulato - A música Sertaneja, com 'S' maiúsculo, a música caipira de raiz, é uma planta que não morre. Em todo o canto do Brasil existe um sertanejo de raiz. Um camarada ligado à realidade do sentimento. Que seja nordestino, sambista... Para nós mineiros e goianos sobrou a moda de viola, cateretês e cururus, coisas da música caipira. Quando chegamos aqui em Brasília já encontramos pessoas cantando, que até hoje são exemplos de uma resistência muito grande. Conhecemos na época o trio 'Cancioneiro das Américas' e a dupla 'Companheiro e Campinal'. O Campinal continua vivo e cantando aqui em Brasília. Convivemos com 'Mangabeira e Florestal'. O 'Zé do Campo' foi meu professor de cantata em segunda voz e ainda está vivo, cantando por aí. Por esses é que a música sertaneja chegou à capital, e mais com a colaboração de uma gama de pessoal, incluindo locutores de rádio, em luta por esse ideal sertanejo.

 

Castelo Forte - E na esfera nacional?

 

Zé Mulato - Temos em Brasília nomes de projeção nacional, como o 'Chico Rei e Paraná', que começaram com a gente. Nós cuidando mais da música caipira mesmo e eles seguindo mais uma tendência romântica. Uma coisa complementa a outra. Nessa época em que começamos tínhamos muitos talentos que não conseguiram maior projeção porque as oportunidades eram menores. Hoje melhorou muito. A conscientização do povo brasileiro melhorou, apesar de ainda sermos bastante bombardeados pela americanização, por exemplo. Os sertanejos foram obrigados a imitar os americanos e cantar aquelas 'lengalengas' deles lá, ao invés de ser realmente brasileiros. Mas assim mesmo a música brasileira é tão forte que acaba sobrevivendo a tudo isso. Estamos de pé, ainda lutando por uma música que a gente acredita.

 

Castelo Forte - Como foi para chegar à primeira divisão da música sertaneja brasileira?

 

Zé Mulato - Sempre defendi a musica caipira, que para mim é uma questão de autenticidade, irmã gêmea da simplicidade, junto com outra irmã, a verdade. Pode não ser essa a verdade absoluta, mas é na que a gente acredita e defende de unha e dente. Nós temos ainda na ativa o 'Zico e Zéca', o 'Carreirinha', com 85 anos ainda está ai fazendo moda de viola. Morreu um bocado de companheiros no ano passado e em anos recentes. O 'Suzino', o 'Vieira', o 'Tião Carreiro'... E nós ficamos para contar essa história que foi contada pra gente.

 

 Castelo Forte - Como funciona a composição das letras, a inspiração? O que lhes emociona e como identificam um tema que pode virar uma obra musical?

 

Zé Mulato - É dito por mim e não sei mais quem foi que disse que a poesia é uma expressão da alma. Se você está com a alma num ponto você vai fazer poesia sobre aquele jeito que você está. Eu não tenho uma linha fixa pela qual eu sigo direto. Escrevo sobre aquilo que eu sinto e entendo. Às vezes me tiro do meu eu para me colocar no lugar de alguém que está com algum problema e escrevo sobre aquilo. Mas escrevo como se eu fosse aquela pessoa. Nisso se inclui protesto, questões sobre o dia-a-dia, bronca, paixão, tudo. Escrevo sobre tudo quanto me é permitido. Tenho muita fé que a inspiração não é de propriedade de ninguém. Às vezes você não está nem pensando em compor uma música e, ao caminhar, você começa a compor uma música. Outra hora você senta com um caderno na mão e não consegue produzir nada.

 

Castelo Forte - Eu, Élton Skartazini, gosto muito da música chamada 'Proparoesquisítono'. Aproveitando a oportunidade, você poderia falar dela em específico?

 

Zé Mulato - Esta moda foi muito bem rodada porque na época, em Brasília, você botar uma viola no peito e dizer: "eu sou um cantador de música caipira", era uma afronta. Éramos desprezados por isso. Afinal, estávamos na 'Capital Federal', cidade culta. Mas nós trouxemos o Brasil lá do interior para cá. Eu, o Cassiano e outros criadores. Quanto a essa música, alguém, que não vou falar o nome, pois só gosto de falar o nome das pessoas quando vou falar bem, deu uma entrevista e o entrevistador perguntou sobre o Zé Mulato e Cassiano. O caboclo disse que nós éramos uma dupla robô, que cantávamos umas coisas antiquadas e quadradas. Se eu fosse lá brigar e xingar o companheiro, não estaria sendo nenhum centímetro melhor do que ele. Aí resolvi mostrar que simplicidade não tem nada a ver com burrice. Aliás, simplicidade é até uma sabedoria. Então escrevi numa brincadeira e falei sobre o que eu queria:

 

Proparoesquisítono
 

Fiz essa moda meio esquisofrênica,
só porque me chamaram de quadrilátero.
Dizem que eu canto moda da idade milênica
e que meus versos já estão reumáticos.
Eu não ligo pra comentários irônicos,
quem fala é porque tem problemas psíquicos.
No braço da viola eu provo, sou biônico,
não sou eu quem digo, é a opinião dos críticos.
Ser imitador eu até acho válido,
mas falar dos colegas não é bem simpático.
Cuidado, seu nome é que está muito pálido,
deixa minha vida, não seja fanático.
Eu quero acabar com violeiro monótono,
desafinado eu conheço a quilômetro.
Arreganha a cuca igual hipopótamo,
enjoa o ouvinte, não tem semancômetro.
Eu já derrotei violeiro satânico,
que no desafio era diabólico.
E pra apaziguar esse encontro titânico,
caçou um exorcista e um chefe católico.
Até parecia um combate germânico,
e o resultado foi mesmo caótico.
Ele desandou o sistema orgânico,
sujou na viola e acabou neurótico.

 

Fiz toda a música em proparoxítona e dei o recado que eu queria. Chamou-se 'Proparoesquisítono', porque é uma coisa esquisita em proparoxítona. Fizeram até dissertação nas universidades sobre ela.

 

Castelo Forte - O que dizer à nova geração?

 

Zé Mulato - Gostaria de dizer aos jovens que não se iludam porque há pouco tempo atrás os rapazinhos da coisa éramos nós, o Cassiano e eu. No entanto hoje estamos aqui contando um causo que a gente precisa continuar contando, que também foi contado pelo 'Zé Carreiro e Carreirinho', pelo 'Solimão Ruero', pelo 'Vieira e Vierinha' e outros. Então essa turma que tem condições e tem o dom de compor e de cantar, que o façam de coração. Que façam uma música na qual eles próprios acreditem. Seja caipira, samba, MPB... Façam uma coisa própria acreditando no que fazem e, por favor, botem muito amor por cima disso, porque isso é um dom da alma. Ninguém treina para ser compositor. Pode-se até melhorar, mas quem nasce para ser compositor será compositor, quem não nasce para isso não adianta pelejar. Quem tem o dom deve seguir com respeito e muita fé. O primeiro que tem obrigação de gostar daquilo que cria é o próprio criador. Depois dele mais gente vai aderir àquele sentimento e a isso se chama sucesso. Agradeço a oportunidade de falar disso que mais gosto.

 

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